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Fundo mistura comportamento com valor para ganhar com ações

Fundos na Arena

Você é daqueles investidores que têm os pés trocados? Compram quando o mercado já subiu e vendem quando os preços já caíram bastante e estão começando a se recuperar? Saiba que isso é absolutamente normal. Tão normal que há gente que ganha dinheiro com isso. São os gestores especializados em finanças comportamentais, ou behavior  finance. Eles sabem que, assim como aqueles ratos brancos de laboratório, os investidores costumam agir de acordo com determinados padrões que podem ser usados como estratégias de investimento. E investem no sentido contrário.

É o caso do comportamento de manada – onde seus amigos aplicam, você também quer aplicar – , da autoafirmação – melhor perder com a turma do que correr o risco de ganhar sozinho – ou da resistência a admitir perdas – a ação que seu cunhado indicou não para de cair, mas você não consegue se desfazer da maldita. Há ainda os que ficam valentes e aceitam correr mais riscos quando o mercado está em alta e se tornam conservadores quando está em queda.

Nobel de Economia

A teoria das finanças comportamentais valeu a Daniel Kahneman (na foto) e Amos Tversky o Prêmio Nobel de Economia de 2002. Mas, apesar de bem conhecido, poucos gestores usam oficialmente o behavior finance nas gestões de carteiras. Oficialmente, porque vários, mais experientes, já conhecem esses comportamentos, sentiram na pele a irracionalidade do mercado e tiram vantagem disso intuitivamente. E atribuem isso aos cabelos brancos.

Por isso, é interessante acompanhar o caso da Mint Capital, de Cássio Beldi, que, sem cabelos brancos (ele ainda não chegou aos 30), resolveu unir seus estudos de finanças comportamentais com outro pilar da gestão de recursos: o investimento de valor.

Teoria do valor

Desenvolvido por Benjamin Graham nos anos 1930, a teoria do valor foi usada por um de seus alunos, o bilionário americano Warren Buffett, o oráculo de Omaha, para começar sua fortuna. “Hoje Buffett já mudou um pouco de estilo, até porque pelo tamanho do patrimônio que ele acumulou não daria para seguir os princípios de Graham”, esclarece Beldi.

Mercado ineficiente

O investimento em valor se baseia no princípio de que o mercado é ineficiente, imperfeito, e por isso erra na avaliação das empresas. A partir dessa ideia, o resto da teoria é simples: comprar boas empresas que estejam com seus preços muito depreciados, o que garante assim uma margem de segurança para o investidor. Nessa análise, o gestor leva em conta apenas os dados quantitativos da empresa, ou seja, seus resultados passados e presentes, sem tentar projetar o futuro.

Ao mesmo tempo, é preciso diversificar, para reduzir o risco de uma das apostas dar errado. Por isso também a margem de segurança tem de ser grande. E por fim, é preciso ter paciência para que o mercado reconheça que errou, ou seja, puxe para cima os preços da empresa. Na prática, a dificuldade é como saber se uma empresa está barata e vai melhorar ou se vai continuar na lama, ou ainda pior, se não vai quebrar.

A teoria do valor já é muito usada pelos gestores independentes brasileiros. O diferencial da Mint é uni-la com finanças comportamentais.

Modelo acima do gestor

De família rica – ele escreveu inclusive um livro sobre isso, “De Herdeiro para Herdeiro”, com outros amigos –, Beldi começou a aplicar em ações aos 15 anos. “Ganhei dinheiro sem entender do mercado, por isso resolvi estudar e descobri o ‘value investing’”, lembra. “Mas parecia tão simples e eu não entendia por que as pessoas não conseguiam seguir a estratégia.”

A resposta veio com as finanças comportamentais. “O inconsciente, o comportamento não deixa os investidores seguirem a disciplina que o investimento de valor exige”, diz.  A saída, segundo ele, era tornar o processo mais importante que as pessoas, para eliminar o fator emocional.

Clube virou fundo

Foi assim que Beldi montou um clube de ações em 2008 com alguns amigos usando um modelo matemático quantitativo para detectar no mercado as empresas que estão abaixo de seu valor justo, usando indicadores de desempenho como lucro e fluxo de caixa. O clube tornou-se um fundo em 2009 e hoje tem R$ 20 milhões de patrimônio.

Filtro antimicos

Para complementar o modelo, Beldi criou filtros para evitar os possíveis micos. “Três coisas podem quebrar uma empresa, prejuízo, alavancagem e fraude”, diz. Além desses filtros, ele também pode excluir alguma empresa que ache que não se enquadra no perfil do fundo. “Mas o analista não pode incluir ações à lista criada pelo modelo, só tirar”, afirma.

Os dois primeiros riscos, lucro e alavancagem, podem ser detectados pelo histórico das companhias e por seus balanços, explica. Já a fraude é mais difícil, pois é um evento que é impossível de ser previsto.

Longe dos IPOs

Por depender dos números das empresas, o sistema que Beldi desenvolveu não entra em aberturas de capital, os chamados IPO. “Nesse caso, não conheço o histórico do negócio e sigo a regra de que, se o dono está vendendo, ele está pedindo mais do que a empresa realmente vale”, diz ele, repetindo as ideias de Buffett. “Aguardo para comprar depois.”

Foi o que aconteceu com a construtora EZ Tech, que lançou seus papéis a R$ 9,00 e chegou a ser negociada a R$ 2,00. “Comprei nessa hora, quando o mercado não acreditava na empresa pois ela não ia entrar no Minha Casa, Minha Vida”, lembra. Aí entra o behavior finance: olhar papéis que apanharam muito do mercado por determinada notícia ou mudança. “Em geral, o mercado exagera, tanto na desvalorização quando na valorização, pelo comportamento de manada”, diz.

Sempre comprado

Outro princípio do fundo é estar sempre 100% comprado em ações. Um estudo feito por Beldi mostra que quem aplicou R$ 10 mil no Ibovespa em 1967 teria R$ 616 mil em 2009, descontada a inflação do IGP-DI. “Mas, se o investidor perdesse apenas os nove melhores meses desse período, ficaria com apenas R$ 9 mil”, diz. Se perdesse apenas o melhor mês, o ganho cairia pela metade.  “Isso mostra que o investidor não pode ficar entrando e saindo do mercado, pois perder apenas um mês de ganho faz uma grande diferença”, diz.

Ganho com Nossa Caixa

O fundo da Mint trabalha com 20 ações em proporções relativamente iguais, já que, segundo Beldi, não dá para saber qual delas se sairá melhor. Em 2008, por exemplo, o fundo ganhou bastante dinheiro com as ações da Nossa Caixa, que foi vendida para o Banco do Brasil. Os papéis tiveram ganhos de mais de 50%.

Outro acerto foi com a operadora de cartões Cielo, cujo preço caiu após a oferta pública de abertura de capital. “São casos clássicos em que o mercado erra na avaliação”, diz Beldi. Ele cita o caso da Natura que, em 2007, previu crescer em 60% as receitas e acabou conseguindo 30% de aumento. “O papel despencou, apesar de a empresa ter crescido 30%, é totalmente ilógico, e nós nos aproveitamos dessa irracionalidade”, diz.

Em busca dos azarões do mercado

Beldi compara sua estratégia a uma corrida de cavalos, na qual a maioria das pessoas aposta nos favoritos para receber prêmios pequenos enquanto alguns procuram os “azarões”, que dão os maiores ganhos. “O problema é evitar os pangarés, ou seja, as empresas que vão quebrar ou não vão melhorar”, diz.

É o mesmo caso, lembra, de quem chega em uma cidade desconhecida e escolhe o restaurante mais cheio achando que ele deve ser o melhor. “É o efeito manada, que faz com a que a bolsa acabe supervalorizada ou desvalorizada”, diz.

Dentro dessa visão contrária ao senso comum do mercado, Beldi cita hoje a situação das ações de empresas elétricas, que despencaram após o governo anunciar mudanças nas regras de concessões do setor. “O risco já é sabido e já deve estar incluído no preço”, diz.

Eletropaulo na carteira

Ele tem na carteira ações da Eletropaulo, que chegam a pagar quase 20% ao ano em dividendos, mas que vêm sendo evitadas pelos investidores por conta de uma pendência bilionária com a Eletrobras. “Mas o preço da ação já embute esse risco, e, enquanto isso,  já recuperei o valor investido apenas em dividendos”, diz. Além de Eletropaulo, ele tem ainda Transmissão Paulista, Cemig e Equatorial.

Aposta em bancos

O fundo aplica também em bancos, que apanharam bastante após o governo forçar a queda dos juros dos empréstimos, como Santander, Itaú e Banco do Brasil. Beldi evita, porém, bancos pequenos, devido às recentes denúncias de fraudes no Panamericano e Cruzeiro do Sul. “Tenho apenas Banrisul e ABC, o primeiro por ser estatal e o segundo por ter participação do governo da Líbia, que tem dinheiro, ou ainda pode vender a participação para outro estrangeiro”, diz.

Vale, sem preconceito

O fundo não tem apenas empresas pequenas. É o caso de Vale, por exemplo, que entrou na carteira após as fortes quedas provocadas pela revisão do crescimento da China.

A estratégia até agora vem dando certo. Desde o início, em 2008, e até setembro, o fundo acumula ganho de 92,49%, para 26,4% do IBRX.

O fundo da Mint tem aplicação mínima de R$ 50 mil e taxa de administração de 2% ao ano mais 20% do que superar o IBrX-100. A carência para resgate é de 18 dias após o pedido.

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