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Fundo no exterior da Postalis perde R$ 198 milhões com sobrevalorização de títulos e Argentina

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Um fundo de investimentos no exterior do fundo de pensão dos funcionários dos Correios, o Postalis, teve de provisionar neste mês mais da metade (51,8%) do patrimônio para eventuais perdas com títulos de empresas que teriam sido comprados por um valor muito acima do de mercado e que são garantidos por papéis da dívida argentina. O patrimônio do fundo Brasil Sovereign II Fundo de Investimento de Dívida Externa (Fidex) caiu R$ 198 milhões, de R$ 384 milhões para R$ 186 milhões, no dia 1º de agosto. O Postalis é o único cotista da carteira.

A maior parte desse valor se refere à compra de papéis de dívida privados (credit-linked notes, ou notas) em dezembro de 2011 pelo então gestor da carteira, a Atlântica Administração de Recursos Ltda. Segundo o administrador da carteira, a BNY Mellon DTVM, o então gestor da carteira teria pago US$ 79 milhões (R$ 179 milhões) a mais do que o valor de mercado pelos papéis. Esse prejuízo, que se materializou no ato da compra dos papéis em 2011,  se soma agora à queda no valor dos papéis.  A Atlântica foi substituída há cerca de dois anos pela gestora do próprio BNY Mellon.

Segundo nota do administrador,  “recentemente, tivemos acesso a informações sugerindo que o Fidex pagou valor superior àquele efetivamente devido para a aquisição das notas”. O BNY Mellon iniciou então “uma investigação dos fatos, a qual aponta que o Fidex pode ter pago valor excedente de aproximadamente US$ 79 milhões”.

Além de ter pago mais pelos papéis, o fundo teve de fazer provisões dos títulos emitidos pela Argentina, que servem de lastro para as notas, uma vez que o país se encontra impedido pela Justiça americana de pagar os credores.

A perda do fundo do ainda é virtual e poderá ser reduzida caso a Argentina consiga retomar os pagamentos. Já o valor pago a mais pelo fundo será mais difícil de ser recuperado.

Processo na CVM

A Atlântica Administração de Recursos é citada em processo administrativo sancionador na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) de 2010, que teve início com uma denúncia da Financial Industry Regulatory Authority (FINRA, entidade americana que fiscaliza o mercado americano).

A FINRA teria comunicado que haveria indícios de irregularidades envolvendo uma corretora constituída nos EUA e dois fundos constituídos no país, um deles o Brasil Sovereign II, e o Atlântica Real Sovereign Fundo de Investimento de Dívida Externa. Ambos os fundos eram carteiras exclusivas criadas para o Postalis. O Atlantica Real foi incorporado ao Brasil Sovereign II em dezembro de 2010.

Segundo a CVM, o balanço anual de 2008 da corretora americana investigada pela FINRA, da qual vários sócios e empregados da Atlântica haviam sido empregados, indicava que 95% da receita total vinha das negociações feitas pelos dois fundos. Ainda de acordo com a CVM, o diretor responsável pelas operações dos fundos na Atlântica foi empregado e sócio da corretora americana.

Com base em cinco operações realizadas entre junho e setembro de 2009, nas quais títulos adquiridos pela corretora foram repassados a determinados compradores antes de serem comprados pelos fundos com aumento expressivo no valor de cada negociação, a FINRA estimou um prejuízo de US$ 16,2 milhões para os fundos decorrentes da atuação da corretora.

Uma das operações mostraria que, em uma das negociações, um título do Commerzbank AG Frankfurt foi comprado por US$ 3,7 milhões em 6 de julho e vendido a um dos fundos em 24 de julho por US$ 6 milhões.

Segundo a CVM, 70% do valor pago a mais pelos fundos nas operações foi repassado a determinadas pessoas com a título de comissão.

 

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