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Setubal espera mais calotes de grandes empresas; bancos públicos ainda terão problemas

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Os bancos brasileiros ainda vão enfrentar neste ano problemas de inadimplência de grandes empresas, acredita Roberto Setúbal, presidente do Banco Itaú Unibanco. Segundo ele, diferentemente de outras crises, os bancos privados estavam mais preparados para o aumento dos atrasos. “Desta vez, o problema maior no ciclo foi atacado, tivemos vários problemas desde a queda de preço de commodities, da Lava Jato, problemas muito grandes”, disse. “Mas anima saber que os problemas são conhecidos e o banco já provisionou o que vem daqui para frente”, afirmou. “E estamos superpreparados para esse crescimento previsto de 4%”, afirmou.

Problemas nos bancos públicos

Setubal, que deixa o dia a dia do Itaú neste mês, após 23 anos como presidente executivo, afirmou ainda que o sistema financeiro brasileiro ainda vai sofrer os efeitos da tentativa do governo de Dilma Rousseff de tentar sustentar o crescimento incentivando o crédito e o gasto subsidiado. “A ideia de dar mais crédito e gastos subsidiados não se sustentou e vamos assistir muitos problemas ainda por conta disso”, afirmou. “Depois de 2012, os bancos privados deram uma desacelerada cautelosamente no crédito pelo ciclo económico mais difícil, mas os bancos públicos expandiram suas carteiras na mesma época, e vamos ver o efeito disso nos balanços dos bancos públicos por alguns anos ainda”, afirmou.

Crédito subsidado

Ele criticou também o crédito subsidiado, que, segundo ele, custa R$ 50 bilhões ao Tesouro ao ano, mais que o gasto com o programa Bolsa Família.

Recuperação lenta da economia

O presidente do Itaú vê uma recuperação lenta da economia, chegando a questionar a projeção do próprio departamento econômico do banco, de 4% para 2018. “Questiono muito esse número”, disse, de forma bem humorada, durante o seminário Macro Vision, promovido pelo banco. Segundo ele, o país vai se recuperar muito lentamente pela dificuldade das empresas por conta do elevado endividamento, e pelo emprego e renda se recuperando lentamente. “Mas vejo a economia se recuperando, há alguns sinais pequenos de recuperação, como queda na inadimplência, e o crédito deve crescer este ano”, afirma. A queda dos juros, disse, será muito importante para a retomada da economia neste ano.

Eleição de 2018 será muito relevante

A eleição do ano que vem será “superrelevante”, afirma Setubal, afirmando que se o eleito levar adiante as reformas feitas neste governo haverá mais uma década de otimismo. “Vamos ter a reforma trabalhista que é superimportante para o setor privado, mais que previdência, que é mais importante para o setor público”, explicou. A reforma trabalhista trará ganhos de produtividade que o futuro presidente vai colher. “Tudo que foi feito no Plano Real criou o ambiente para o crescimento na década seguinte e vamos ver isso novamente, os frutos das reformas surgirão daqui 4 ou 5 anos.”

Sem pretensões políticas

Ao falar da participação dos empresários na política, Setubal deixou claro que não pretende tentar um cargo público após sair da presidência do banco. “Não tenho pretensão a nada, muito pelo contrário, acho que posso contribuir na iniciativa privada”, disse. Mas ele acredita que há espaço para quem gosta de fazer política. “É preciso melhorar a gestão pública e a ida de empresários para a política pode ajudar nisso, mas o país precisa de políticos”, diz. “A interação entre a sociedade e o Congresso tem de ser feita por políticos, não é colocando um gestor competente que isso vai resolver os problemas do Brasil”.

Meta de inflação deveria cair para 2,5% a 3%

Setubal lembrou, porém, que o pais ainda tem problema de inflação e juros muito elevados, mesmo com a redução atual das taxas. “Espero que a meta de inflação possa vir par patamares mais baixos nos próximos anos”, disse. Em junho, o Conselho Monetário Nacional (CMN) deve definir uma nota meta para a inflação que valerá a partir de 2019 e o presidente do Itaú espera que ela fique em 4%, mas o ideal seria menos ainda. “A inflação deste ano já vai ficar abaixo da meta de 4,5% e o governo pode reduzir a meta para 4%, mas o ideal para o Brasil seria uma meta de 2,5%, 3% ao ano”, disse. E o juro real também poderia ser menor, acompanhando a inflação mais baixa.

Contra as intervenções no câmbio

Setubal critica as intervenções do Banco Central no mercado de câmbio, afirmando que elas acabam criando distorções. Mas admite que elas são necessárias pois as oscilações do dólar têm também um componente político que interfere na taxa de câmbio e provoca problemas para toda a economia. “Mas há a tentação de intervir no câmbio e o colchão de reservas internacionais acaba criando espaço para as intervenções”, avalia. Ele diz, porém, que o Brasil não tem mais problema de balanço de pagamentos. “Desde que o país passou a ter câmbio flutuante, o Brasil não teve mais déficit comercial.”

Volatilidade econômica atrapalha pequenas empresas

Para o presidente do Itaú, a volatilidade do crescimento é terrível para economia, especialmente para pequenas empresas, que não têm base de capital para suportar oscilações. Em parte, o motivo dessa volatilidade são as  flutuações de políticas macroeconômicas. “O primeiro passo seria ter políticas mais estáveis”, afirma Setubal. Ele acredita que o teto de gastos criado pelo governo atual cria uma perspectiva de política fiscal mais estável e consistente, que deixaria de variar de acordo com o cenário eleitoral. “A instabilidade fiscal dos últimos anos criou oscilações do crescimento”, diz o executivo. “Uma política fiscal com gastos mais controlados pode abrir espaço para crescimento também sustentável da economia.”

Desigualdade prejudica democracia

Houve uma redução da desigualdade nos últimos 20 anos no Brasil, conforme mostra o índice de Gini, afirma Setubal. “O progresso foi significativo, embora o nível de concentração de renda ainda seja bastante elevado para padrões mundiais e o Brasil continue com uma das maiores desigualdades do mundo”, diz, lembrando que o índice deve ter piorado no ano passado por conta da recessão e do desemprego. A redução da desigualdade, afirma o executivo, depende da sustentabilidade do crescimento económico. “Isso só se resolve com economia em crescimento”, diz.

E o maior problema dessa desigualdade é a instabilidade política que ela provoca. “A democracia para funcionar bem não pode ter a desigualdade que o Brasil tem”, afirma. E a educação que o Brasil oferece também não ajuda a melhorar esses índices, alerta Setubal. “A educação cria a possibilidade de as pessoas terem empregos melhores, com maior renda, maior produtividade, o que faz a economia crescer mais”, lembra.

 

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