Arena do RI, Arenas das Empresas

Executivos de mercado mostram a empresa como atrair investidor

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A gestão independente de recursos deixou de ser o único caminho dos executivos experientes que deixam o mercado financeiro. Cresce o número dos que buscam trabalhar com as empresas não financeiras, usando sua experiência do outro lado do balcão para ajudar empresários a entender como pensam os bancos, gestores e investidores e melhorar a transparência e a governança.

Dois executivos conceituados resolveram recentemente trilhar esse caminho. Luís Scaglianti e Celso Portásio se juntaram no começo deste ano à consultoria RGF Associados. A empresa é formada por Riccardo Gambarotto, que trabalhou na Unilever, Clicon, Logimed e foi um dos sócios fundadores da consultoria MGDK, por Gian Filli, do IG, Ultra e Viajo.Com, e por Eduardo Estefano, executivo com passagens pela Siemens e pela Penalti.

A RGF é voltada para auxiliar os donos de empresas com papéis em bolsa, mas cujas ações têm  poucos negócios e baixa visibilidade. “A proposta é ser uma consultoria para os donos, para ajudá-los a aumentar o valor da empresa ampliando o contato com os investidores, agências de rating e bancos a partir de um trabalho estruturado de relações com investidores, o chamado RI”, explica Scaglianti.

Com 30 anos de mercado financeiro, Scaglianti passou por instituições como os bancos Cidade, Itaú, Indosuez e Safra, em que  adquiriu a experiência tanto comprando papéis de empresas (no jargão do mercado, o “buy side”, das gestoras, fundos e tesourarias de bancos) quanto oferecendo para os investidores (o “sell side”, das corretoras e bancos de investimento).

Já Celso Portásio trabalhou durante décadas nas áreas de gestão de recursos e de private bank. Ele comandou a gestão de fortunas do J.P. Morgan no Brasil e foi presidente da comissão de private bank da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) até o ano passado. Sua função é olhar para o patrimônio do empresário e ajudá-lo a cuidar tanto dos investimentos líquidos no mercado quanto dos imóveis e da sucessão.

Com a experiência de mercado, Scaglianti e os sócios conhecem os pontos mais importantes que os investidores institucionais, como fundos de pensão ou seguradoras, gestores de fundos de ações, agências de rating e analistas de corretoras olham. E, a partir da melhora da percepção do modelo de negócio da companhia e do seu potencial, melhora também a avaliação de risco da companhia. “Há um impacto positivo no caixa da empresa, pois um risco menor reduz custos de financiamento e aumenta a oferta de crédito”, observa Scaglianti.

Maior visibilidade e contato com os investidores ajudam também a ampliar a liquidez dos negócios em bolsa e o valor de mercado da companhia e, por tabela, do patrimônio do acionista.

Por esse motivo, o foco da consultoria não são as empresas no topo da pirâmide da bolsa, que já possuem volumes grandes, estrutura de RI bem montada e são acompanhadas por dezenas de analistas de corretoras e bancos. “Queremos buscar aquele um terço das empresas que estão em bolsa, mas com baixíssima negociação e nas quais o relacionamento com o investidor é feito de maneira passiva”, afirma Scaglianti.

Ele lembra que, por lei, toda empresa aberta precisa ter um diretor de Relações com Investidores. Mas em muitas empresas essa função tem pouca representatividade e chega a ser acumulada por outro diretor, como o financeiro ou de marketing, ou até pelo próprio dono. “Esse RI vai atuar de maneira totalmente reativa, só quando for provocado por alguma demanda do mercado, em vez de levar a empresa para os investidores e analistas”, diz.

Em muitos casos, o RI também não sabe como mostrar a empresa para o investidor e não conhece as questões básicas que os analistas pedem.

No trabalho, iniciado há alguns meses, Scaglianti e seus sócios identificaram fundos de ações com atuação forte no mercado de empresas menores (“mid” e “small caps”, com baixa capitalização) e horizonte de investimento de mais longo prazo interessados no trabalho da consultoria. São casos dos fundos da família Sinergia, do Banco Fator, ou da Sul América Investimentos ou gestoras independentes como Victuaire ou Leblon.

“São gestores que gostam de histórias que o mercado em geral ainda não descobriu, empresas menos líquidas, com valor de mercado muito subavaliado”, diz. Nesse caso, conhecer o lado dos gestores ajuda a consultoria a apresentar melhor a empresa. “Podemos atuar como parceiros do fundo, para melhorar a visibilidade da empresa”, explica.

Segundo Scaglianti, esse conhecimento do mercado é um diferencial em relação às outras consultorias, que cuidam mais da comunicação das empresas com os investidores. “Temos cinco ou seis consultorias de RI no mercado que trabalham com pacotes padrão, com montagem de site, canal de atendimento, tradução de documentos e estrutura para conferências de resultados”, diz o executivo. “Mas elas não entram na empresa para ajudar o RI ou o dono a ter uma estratégia de longo prazo de se aproximar do lado comprador e o vendedor ou das agências de rating”, afirma Scaglianti.

A formação diferenciada dos sócios, alguns especialistas em administração de empresas, outro em mercados e outro em gestão de recursos, ajuda a consultoria a conhecer melhor as companhias para apresentá-las aos investidores. “São coisas que o dono da empresa, no dia a dia, não tem tempo para fazer, pois está preocupado em tocar o negócio, e não ficar procurando os investidores”, diz.

A consultoria identificou um universo de 100 a 200 empresas que poderiam se beneficiar de uma estrutura mais ativa de RI. Em alguns casos, elas até têm um diretor responsável pelo contato com os investidores, mas a área não tem relevância ou o profissional não tem experiência. “A maioria não dá importância à relação com os investidores e acaba desvalorizando a própria empresa”, diz Scaglianti. “São em geral empresas com controle acionário muito concentrado no dono.”

Ele admite que, com a bolsa em baixa e o investidor fugindo do mercado acionário, fica mais difícil convencer os empresários a investir em RI. “É um custo a mais e, como a economia não está boa, não é prioridade para o empresário”, afirma. “Mas é importante que ele pelo menos comece agora a cuidar disso, pois essa aproximação com o mercado é um trabalho de longo prazo, não é só virar um botão para todos conhecerem e entenderem a empresa”, diz. “É um processo de pelo menos um ano e, como o mercado é cíclico, logo as coisas melhoram de novo e a empresa precisa estar preparada”, afirma.

Uma das dificuldades é quando a cultura do empresário não ajuda a empresa a ser mais transparente. “Muitos não querem se expor, e às vezes, nem o RI, pois ele vê aquela função como passageira enquanto não surge uma oportunidade melhor, na diretoria financeira ou até no comando da empresa”, explica Scaglianti. Por isso há o trabalho de ampliar a transparência e a comunicação com o mercado.

Hoje, a RGF  Associados têm quatro empresas negociando projetos de RI. A expectativa é que esse número aumente depois da safra de balanços e assembleias anuais. “Os conselhos já definiram as estratégias até abril e agora as empresas começam a analisar as propostas”, diz.

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