Arenas das Empresas, Governança

Codim quer que empresas abertas falem a lingua dos investidores e se façam entender

Ações na Arena

Tente ler um comunicado ao mercado de uma empresa “popular”, com grande número de acionistas, “patrimônio dos brasileiros”, como uma Petrobras, uma Vale ou um Banco do Brasil. Se você não for um analista ou não acompanhar o mercado de capitais há alguns anos ou não for um especialista no setor de petróleo, mineração ou bancário, terá sérias dificuldades em entender o que está sendo dito. E isso para empresas grandes, com imensas áreas de relações com investidores e de marketing. Em alguns casos, fica claro que o comunicado veio diretamente do departamento jurídico, tamanho o uso de termos técnicos e legais.

Esse pouco caso com o investidor comum se justifica pelo próprio formato do mercado de capitais brasileiro, concentrado em grandes investidores institucionais ou estrangeiros. Sem necessidade de atrair o grande público e o seu dinheiro, as empresas abertas pouco se preocupam em falar de maneira simples com o investidor médio, a ponto de uma empresa ter alguns anos atrás dito que só publicaria fatos relevantes em inglês.

Propostas para melhorar comunicação

Para tentar melhorar um pouco esse contato com os investidores, o Comitê de Orientação para Divulgação de Informações ao Mercado (Codim), que reúne diversas entidades do mercado, divulgou hoje uma orientação para as empresas abertas. A ideia é incentivar a segmentação da forma como as companhias se comunicam com seus diversos públicos. Entre as propostas, está diferenciar os comunicados para investidores qualificados e não qualificados.

Facilitar sem mudar informação

A orientação, chamada de Segmentação da Comunicação com o Público do Mercado de Capitais, procura estimular as empresas a utilizar abordagens e formas distintas de comunicação, sem alterar o conteúdo da informação divulgada, seja ela obrigatória ou não, para atingir diferentes públicos estratégicos da companhia, respeitando sempre a equidade, consistência, simultaneidade e os canais de comunicação oficiais.  O objetivo é aprimorar a comunicação, mitigar riscos e melhorar as ações estratégicas na disseminação de informações para o mercado.

Segundo o Codim, a companhia deve considerar que existem diversos públicos interessados nas informações com níveis de conhecimento diferentes, o que requer uma comunicação segmentada. Deve também avaliar a possível existência de investidores qualificados e não qualificados em sua base acionária ou que sejam públicos de seu interesse, conforme definição na regulamentação específica emitida pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Pode ser necessário considerar, também, a segmentação dentro do próprio grupo de investidores, em função de níveis diferenciados existentes.

Comitê de Divulgação

A recomendação do Codim é que a comunicação direta seja realizada e coordenada por área capacitada e que possua essa responsabilidade formalizada no organograma funcional da companhia, preferencialmente a área de Relações com Investidores. É recomendável que a companhia constitua inclusive um Comitê de Divulgação, formado por profissionais capacitados de áreas envolvidas com a produção e divulgação de informações, dependendo da estrutura da companhia, como: Relações com Investidores, Contabilidade, Finanças, Gestão de Riscos, Compliance, Jurídico, Planejamento e de Comunicação.

Linguagem simples, direta e acessível

O Codim recomenda, como se fosse necessário, que a empresa use linguagem simples e direta, acessível ao público investidor, respeitando a terminologia própria do mercado financeiro. Outra sugestão é usar as ferramentas de tecnologia de comunicação atuais e  desenvolver ou adotar aplicativos ou tecnologias que disponibilizem as informações agrupadas e com fácil acesso por meio de dispositivos móveis ou outras tecnologias aos seus públicos estratégicos. “Recomendamos, nesses casos, que essas ferramentas de comunicação sejam formalmente inseridas como meio de comunicação oficial da Companhia em sua Política de Divulgação”, diz o Codim.

A empresa poderá fazer a comunicação de forma resumida em determinado canal (aplicativo, mídia social, etc.), desde que tenha sido apresentada à CVM antes ou simultaneamente à sua divulgação e contenha link para acesso à página com a informação completa, sugere o Codim.

Avaliação dos resultados

A companhia deve também analisar a percepção do mercado sobre sua comunicação, para obter informações qualitativas e quantitativas sobre seu conteúdo e as ferramentas utilizadas com os diversos públicos estratégicos. É preciso avaliar os resultados em website de Relações com Investidores, release, teleconferência, apresentação corporativa, relatório anual e outros, para melhor entender as suas necessidades. Outra sugestão é realizar monitoramento de mercado para avaliar a comunicação e as expectativas dos públicos investidores em relação aos seus desempenhos financeiro e não financeiro.

Mas, esclarece o Codim, independentemente do perfil e do nível de conhecimento do público, não deve ser alterado o conteúdo da informação transmitida. Ou seja, simplificar não pode significar cortar informação.

Para ajudar as empresas na missão de simplificar sua comunicação, o Codim faz algumas sugestões práticas.

Relatórios para qualificados  e não qualificados

A primeira, redigir documentos de forma adequada a cada público-alvo, para melhor compreensão do seu conteúdo, respeitando a equidade, e usar linguagem menos técnica desde que a informação possa ser compreendida. Dessa forma, recomendamos que haja, conforme modelo de atuação da Área de Relações com Investidores, emissão de relatório especifico e segmentado para os seguintes públicos-alvo: pessoas físicas, investidores qualificados e não qualificados, conforme regulamentação da CVM.

Glossário de mercado

A segunda sugestão é que em todos os documentos de comunicação seja avaliada pela companhia a necessidade de inclusão de alerta, contendo um glossário para termos do mercado financeiro ou técnicos e específicos para determinadas áreas do conhecimento, demonstrando a preocupação de que haja fiel entendimento de seu conteúdo. E que os documentos definam seu público-alvo.

Forma e conteúdo

A Área de Relações com Investidores da empresa deve ter a preocupação com a forma e o conteúdo na elaboração dos relatórios, visando a atender ao perfil do público-alvo (tais como formação acadêmica, experiência profissional, conhecimento técnico sobre o ramo/atividade da empresa, e riscos associados à área de atuação da Companhia). Os documentos também devem identificar os profissionais responsáveis pela emissão de cada documento, informando nome, cargo, além do contato na Área de Relações com Investidores e respectivo e-mail.  A empresa deve também manter disponíveis em seu site de RI todos os documentos divulgados nos últimos três anos.

Reuniões públicas com investidores

É recomendável também a realização de reuniões públicas pela companhia, presenciais ou por meio de teleconferência ou webcast, sempre que houver novas e relevantes informações sobre os seus negócios ou atualização das informações periódicas. Para o Codim, o contato direto com os públicos estratégicos permite o melhor entendimento. A empresa deve também divulgar fatos relevantes tão logo surjam e nos termos da regulamentação aplicável utilizando como ferramenta o próprio site da companhia. E fazer teleconferências frequentes com todos os públicos estratégicos.

Como ferramentas para melhorar a comunicação com os investidores e o mercado, o Codim sugere o uso da página da companhia na internet ou o site de Relações com Investidores ou a página do regulador de mercado ou do autorregulador. A empresa deve usar também uma lista de e-mails e acompanhar mídias sociais, redes sociais e portais de notícias.

Enfim a lista de sugestões é longa e minuciosa, chegando a parecer em alguns momentos bastante óbvia, mas nem por isso injustificada. Pelo menos, não foi preciso sugerir que as informações sejam divulgadas em português.

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