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“O que tira sono de banqueiro é inadimplência”, diz Setubal; Fintechs não assustam

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Em tom de despedida do cargo de presidente-executivo do Itaú Unibanco, maior banco privado do país, que ele ajudou a construir, Roberto Setubal lembrou hoje dos principais momentos de sua carreira e um pouco da história do do mercado financeiro brasileiro nos últimos 23 anos. Ele tomou posse em 1994, justamente quando o país colocava em prática o Plano Real, que modificou a economia brasileira e controlou a inflação depois de décadas de descontrole de preços. “Os desafios dos bancos eram enormes porque os ganhos vinham da inflação alta, basta lembrar que tínhamos juros no overnight de 3% ao dia”, lembra o executivo. “Havia uma ineficiência enorme nos bancos que se acomodou em torno dessas receitas fáceis de floating.”

O que tira o sono do banqueiro

Segundo Setubal, o momento mais difícil de sua carreira foi justamente nesse começo. “Foi o Plano Real, pois houve uma expansão forte do crédito e depois uma mega inadimplência”, conta. “E o que tira sono de banqueiro é inadimplência, pois não se sabe nunca onde ela vai parar.” Para piorar, o banco rodou alguns meses no prejuízo, “um mega susto”, lembra Setubal, acrescentando que depois “superamos bem” as dificuldades.

Bancos fechando

Mas isso não ocorreu apenas com o Itaú. Depois do real, os bancos tiveram de voltar a ser bancos, a emprestar e prestar serviços, e vários tiveram problemas, conta o executivo. Alguns não sobreviveram a esse primeiro momento, quebraram e foram vendidos. Houve depois a abertura do sistema financeiro brasileiro, com a entrada do HSBC, que comprou o Bamerindus, o Santander, o que mudou o nível de competição no Brasil, que até então só tinha bancos nacionais privados e estatais.

Privatização dos bancos estaduais

Uma terceira mudança foi a privatização dos bancos estaduais, que começou com o Banerj, do Rio, em 1997, e continuou até 2002. “A privatização desses bancos foi muito importante para o saneamento das contas dos Estados, pois havia um descontrole fiscal, com os governos estaduais se endividando junto aos seus bancos”, lembra. “Isso foi resolvido com a privatização”.

Todas essas mudanças deram uma nova dinâmica ao sistema financeiro, que teve um crescimento vertiginoso na última década pelo saneamento anterior e pelo crescimento da economia. “As carteiras de crédito chegaram a crescer 30% ao ano em alguns momentos”, afirma.

Crescimento artificial do crédito

O presidente do Itaú avaliou o mercado de crédito brasileiro, lembrando que os bancos privados ampliaram bastante suas carteiras de empréstimos até 2008, ano da crise internacional. Depois o crescimento foi maior nos bancos públicos. Ele lembrou que, na China, onde o crédito representa 260% do PIB, para 50% no Brasil, a expectativa de especialistas é de que o governo chinês deve continuar apoiando os bancos públicos e o crédito e, em algum momento, vai reduzir esses empréstimos, sem risco natural. “A expectativa do governo no Brasil era também de sustentar o crescimento, que vinha perdendo gás depois da crise internacional, e tentou-se impulsionar a atividade pelo crédito”, lembrou. “Mas as coisas artificiais sozinhas não se sustentam, é uma ilusão, especialmente o crédito subsidiado”, disse.

Problemas com crédito em 2012

Em 2014, 2013, Setubal diz que via com preocupação as políticas econômicas do governo Dilma, mas não imaginava dois anos de recessão e 7% de queda no PIB. “E fomos relativamente bem na administração desses problema”, disse.

O banco, admite Setubal, viveu um momento muito ruim em 2012, com a inadimplência muito alta. “Mas soubemos fazer a lição de casa e depois estávamos mais preparados para enfrentar as dificuldades”, disse. Com isso, o banco conseguiu administrar a inadimplência em 2013 e 2014 no varejo, prevendo o que ia acontecer e tomando medidas antes. “Tivemos domínio sobre a situação nesse ciclo todo de inadimplência maior”, diz.

Tributação limita expansão no exterior

O presidente do Itaú diz que o potencial de expansão internacional do banco não é muito grande. Segundo ele, a alta tributação brasileira, que incide sobre os ganhos externos mesmo sem que eles entrem no país, tira a competitividade do investimento no exterior. Ele dá o exemplo do Chile, onde o Itaú tem um banco que paga 25% de imposto sobre o lucro. “Aqui o imposto é de 45% e eu preciso pagar a diferença independentemente de internalizar o lucro”, explica. Com isso, o banco perde para o competidor local, que paga menos imposto e com isso pode cobrar um preço menor para ter o mesmo lucro. “Isso cria uma enorme incapacidade de competir no exterior”, afirma Setubal.

Basileia 3 atrasada na América Latina

Outro problema é a regra de capital da Basileia. O Brasil já segue a chamada regra da Basileia 3, que exige mais capital dos bancos para emprestar, enquanto outros países não a adotaram. “Mas eu tenho de consolidar os balanços dos outros países no Brasil e tenho de seguir a Basileia 3, e com isso tenho de alocar mais capital do que os concorrentes no Chile, por exemplo”, diz. “E isso influencia a expansão internacional.” Setubal calcula que o custo para os brasileiros operaram no exterior é cerca de 30% maior que o de concorrentes locais, o que torna mais difícil a expansão internacional. “Esperamos que isso diminua com a uniformização das regras da Basileia na América Latina e com a redução dos impostos um dia”, diz.

Fintechs não assustam

O presidente do Itaú diz também que o banco está atendo à evolução das Fintechs, empresas de tecnologia que estão ganhando mercado com produtos inovadores de distribuição de crédito, aplicações e serviços. “Estamos correndo atrás, mudamos nossa área de tecnologia, mas observamos que a evolução tecnológica do Itaú está no mesmo padrão das Fintechs, estamos cobrindo diferença tecnológica”, disse. As Fintechs devem trazer novos modelos de negócios, mais eficientes, diz Setubal, mas ele acha que o banco tem condições de evoluir, se adaptar. “Os bancos vão perder margem, mas vão perder pouco mercado.”

Sucessão bem encaminhada

Setubal destacou ainda o processo de sucessão, com sua substituição por Cândido Bracher, que era responsável pelo banco de atacado, o Itaú BBA, e é filho de outro banqueiro e ex-presidente do Banco Central (BC), Fernão Bracher. Segundo Setubal, a transição foi bem preparada, anunciada há dois anos, o que deu tempo para mudanças na estrutura administrativa do Itaú. “A possibilidade desse planejamento permitiu anunciar no fim do ano passado a indicação de Cândido para o cargo”, disse.

Conselho terá mais funções

No lugar de Bracher no banco de atacado, assumirá Eduardo Vassimon, também funcionário de carreira do Itaú. O banco promoveu ainda uma rediscussão de sua estrutura de governança, com a redistribuição de algumas funções dos executivos para o Conselho de Administração, para onde Setubal irá. Na prática, Setubal continuará acompanhando algumas das decisões do banco, apoiando Bracher neste início de gestão. “Os papéis de diretoria e conselho estão bem arrumados e o banco vai continuar operando para manter um alto nível de performance”, afirma Setubal. “Acredito muito em governança, apesar de o Brasil não dar muito valor a ela, como mostra o que se viu em Brasília, um total desrespeito”, disse, numa referência indireta aos escândalos envolvendo políticos revelados na Operação Lava Jato.

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