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Emissões de empresas têm o pior 1º semestre desde 2009; melhora, só no fim do ano

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O mercado de capitais brasileiro teve este ano o pior primeiro semestre desde 2009, ano que foi marcado pelos impactos da crise mundial de 2008. No total, de janeiro a junho, foram captados no mercado local e internacional R$ 66,5 bilhões, em renda fixa e variável, 22% menos que os R$ 85,5 bilhões de 2015 e 58% menos que os R$ 158 bilhões do mesmo período de 2014, segundo balanço divulgado hoje pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Retração da atividade e mais emissões no exterior

A forte queda foi influenciada pelas emissões locais, por conta da retração da atividade econômica e menor disposição das companhias para captar para realizar investimentos ou rolar dívidas antigas, explica José Eduardo Laloni, diretor da Anbima. As emissões no exterior, por sua vez, cresceram em relação a 2015.

Laloni destaca a queda de 45% nas captações de renda fixa, de R$ 45 bilhões em 2015 para R$ 26,6 bilhões este ano. Já as emissões de renda variável, ou ações, caíram 79%, de R$ 16 bilhões para R$ 3,490 bilhões, mas com um número maior de operações. “No ano passado tivemos apenas uma grande operação de oferta de ações da Telefônica Brasil e neste ano tivemos quatro de menor valor”, diz.

Sem uma abertura de capital até agora

Emitiram ações este ano Brasil Pharma, Banco Mercantil, Rumo Logística (com mais da metade do total, R$ 2,6 bilhões) e Fras-Le, mas nenhuma foi oferta inicial, de abertura de capital. “Há uma operação em preparação, da Log Comercial, que pode ser a primeira do ano”, diz Laloni. Ele destaca que as quatro ofertas de ações deste primeiro semestre foram realizadas dentro da legislação de esforços restritos, que não permite venda ao varejo, mas facilita e acelera o processo para venda a institucionais. “É um sinal que o mercado está usando mais esse sistema, que começou no ano passado, pela agilidade e para aproveitar as janelas de oportunidade que surgiram neste início de ano”, destaca.

Emissões externas crescem 27%

Já as captações externas cresceram 27% em valores, para US$ 10,25 bilhões, ante US$ 8,058 bilhões no primeiro semestre de 2015. O número de operações, porém, foi menor, quatro este ano, metade das oito do ano passado. E foram lideradas pelo governo brasileiro e por empresas estatais ou ligadas ao governo, como a Petrobras e a Vale. “É normal que o governo abra os mercados internacionais para as empresas privadas”, diz Laloni.

A retração da economia teve impacto forte nas emissões de debêntures, que tiveram queda de 46%, de R$ 29,5 bilhões para R$ 15,9 bilhões. As debêntures incentivadas, que dão isenção para pessoas físicas, também foram afetadas pela retração econômica, e sua participação caiu de 14,9% em 2015 para 2,3% este ano, observa Laloni.

Menor prazo e mais CDI

Houve também um encurtamento do prazo das operações, reflexo da alta dos juros e das incertezas da economia, com 66% das emissões limitando seu prazo até 3 anos, novo recorde, superando o anterior registrado em 2015, de 49,8%. Também aumento o uso do CDI, juro diário referencial do mercado de títulos privados, como indexador, atingindo 67% do total de emissões, outro recorde, bem acima dos 43,2% das emissões em 2015. “E todas foram com esforços restritos, com exceção da oferta do Santander”, explica.

A queda das ofertas de notas promissórias foi a mais acentuada entre os instrumentos de renda fixa, destaca Laloni, com uma retração de 52%, de R$ 6,8 bilhões para R$ 3,256 bilhões este ano. Os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI) caíram bem menos, 2%, para R$ 5,784 bilhões, graças a operações pontuais.

Em junho, duas companhias levantaram recursos no exterior, Marfrig e Vale, o que aumentou o total do semestre e mostra o apetite do mercado internacional por papéis brasileiros. Marfrig voltou a emitir em julho e há ainda outras operações em estudo, entre elas Cosan e Forjas Taurus.

Um olho na economia, outro no exterior

O cenário para as emissões brasileiras vai depender do cenário macroeconômico no Brasil e, no caso das operações externas, do apetite por papéis brasileiro, afirma Laloni. Para ele, o cenário está mais positivo que no primeiro semestre, no que o diretor Anbima classifica de “otimismo cauteloso”.

Laloni diz que a retomada das captações deve ocorrer à medida que as questões econômicas sejam resolvidas. Ele não quis falar sobre o impacto do cenário político nas ofertas, mas disse que espera uma concentração da recuperação no fim do semestre, ou seja, depois da votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff no Senado. Já na economia, a retomada vai depender bastante do “destravamento” da questão fiscal. “Tenho esperança que as medidas gestadas pela nova equipe econômica tragam para a economia um ambiente mais positivo”, diz.

No caso das debêntures de infraestrutura, as ofertas vão depender dos projetos de longo prazo das empresas e das oportunidades que surgirem com programas de concessão e privatização e iniciativas novas do governo.

Brexit e recuperações judiciais não devem atrapalhar

O mercado externo também deve continuar com um apetite maior pelos papéis brasileiros, e pode ser fonte de recursos para as empresas no segundo semestre também. Ele não vê um impacto muito forte da saída do Reino Unido da União Europeia sobre as emissões brasileiras.

Laloni espera também que a onda de recuperações judiciais e inadimplências de grandes empresas não afete o mercado de capitais brasileiro. “São casos pontuais e limitados e o que precisamos garantir é que os processos sejam transparentes e que os papéis sejam marcados a mercado pelos gestores corretamente”, explica, destacando que o mercado de capitais brasileiro “tem maturidade para lidar com eles”.

Melhora ao longo do semestre

Ele espera que o cenário econômico melhore no segundo semestre e que as empresas tirem das gavetas seus projetos, especialmente mais para o fim do semestre. E o mercado de capitais terá papel importante, ao lado do BNDES, no financiamento desses projetos, diz Laloni. “A expectativa é de que emissões vão crescendo à medida que cenário fique mais claro.”

Bolsa tem de estabilizar mais para emissões voltarem

Sobre novas ofertas de ações, Laloni diz que alta do Índice Bovespa nos últimos meses ajuda a aumentar o interesse das empresas em lançar novos papéis, mas o mercado ainda precisa de mais estabilidade para a retomada das ofertas. “Já há algumas discussões, mas isso vai depender também da estabilização das condições econômicas e de onde vai estar a bolsa”, afirma.

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