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Crescimento dos ETF é passageiro e fundos ativos vão voltar a brilhar nos EUA, avalia americana Fortis

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Uma tendência que cresce nos Estados Unidos, mas ainda não chegou ao Brasil, é a preferência dos investidores em ações por fundos passivos, que seguem índices de preços em lugar das carteiras ativas, em que um gestor tenta encontrar e selecionar opções que ganhem do mercado. Cresceu nos últimos anos a visão de que os gestores ativos não conseguiram mostrar que são capazes de sempre ganhar do mercado. Em geral, ganham por um período e depois “devolvem” os ganhos, voltando para a média do mercado.

Além disso, os fundos passivos, com cotas negociadas em bolsa (por isso chamados de Exchange Traded Funds, ou ETF) têm um custo muito mais baixo que o de um gestor ativo, que precisa ter uma equipe de analistas para avaliar empresa por empresa e outra para fazer as compras e vendas.

Custo menor

Um custo que costuma ficar acima de 2% ao ano sobre o total administrado. Já no ETF, basta reproduzir na carteira as ações de determinado índice e manter sua paridade. O resultado são taxas em torno de 0,5% ao ano. Outra vantagem é que os ETF podem ser comprados como ações, mas representam uma carteira diversificada, acessível para investidores de varejo com uma aplicação mínima muito baixa, muito menor que a de um fundo de um gestor ativo badalado.

US$ 2,8 tri em ETF

Hoje, existem investidos em fundos ETF US$ 2,8 trilhões em 2 mil ETF somente no mercado americano, de acordo com a empresa de pesquisa XTF. Desse total, 80% estão concentrados em três grandes gestoras especializadas em ETF: Vanguard, BlackRock e State Street. A BlackRock é a maior, com US$ 5 trilhões sob gestão, sendo US$ 1 trilhão em 334 ETF, batizados pela gestora como iShares. A Vanguard tem US$ 4 trilhões em ativos, dos quais US$ 600 bilhões distribuídos em 70 ETF. E a State Street Global tem US$ 2,5 trilhões sob gestão, sendo US$ 450 bilhões em ETF, dos quais US$ 242 bilhões apenas no que reproduz o índice Standard & Poor’s 500, o maior e mais antigo ETF do mercado.

O crescimento da gestão passiva fez diversas empresas americanas desistirem da atividade. Outros, porém, buscam se adaptar ao novo momento, afirmando que o que está ocorrendo é uma mudança, mas não o fim da gestão passiva.

Tendência vai continuar

Segundo a gestora americana Fortis Capital, o movimento de crescimento da gestão passiva deve continuar por mais algum tempo, conforme explica o sócio Mike Boroughs. A gestora é especializada em investimentos de valor, popularizada pelo bilionário Warren Buffett e que busca garimpar ações de empresas com grande potencial, mas não detectadas pelo mercado.

Para Boroughs, o forte crescimento da gestão passiva tornou-se claramente uma tendência importante no mercado dos EUA, com cerca de 40% das ações detidas por fundos de índice. “Espera-se que isso atinja 70% até o final da década”, afirma. O que é interessante sobre isso, diz, é esse movimento se auto alimenta e leva a mais e mais a reforçar a tendência, porque como os preços das ações das empresas sobem, eles ganham mais peso no Standard & Poor’s 500 e, em seguida, novos fundos que usam a gestão passiva têm que comprar mais dessa ação, empurrando o preço das ações para cima ainda mais.

Diversificação é saída

A reação a esse crescimento, diz o gestor, é diversificar o negócio, com alguns clientes atendidos por meio de gestão passiva e alguns que são por meio de um gerenciamento ativo. A gestão passiva superou o ganho da maioria dos gestores ativos nos últimos seis anos, por isso o pêndulo está a favor da gestão passiva neste momento, explica Buroughs. “No entanto, esperamos que isso mude no futuro, uma vez que a gestão ativa em algum momento superará uma vez mais a gestão passiva, e queremos dar aos nossos clientes opções para ambos”, explica.

Oportunidades vão surgir para ativos

Ele garante também que o mercado de ETF nunca substituirá inteiramente os gestores de fundos de ações ativos. “Como disse, o pêndulo tem oscilado muito para o lado passivo (e pode continuar a balançar muito mais)”, diz. “No entanto, à medida que o dinheiro se move para a gestão passiva, criam-se mais e mais oportunidades de investimento para ganhar retornos acima do mercado, porque menos pessoas estão procurando por eles”, explica. Isso provavelmente cria ciclos onde a gestão passiva se move a favor e contra com base no desempenho mais recente.

Pouco valor para o investidor

A maior razão para o crescimento dos fundos passivos é porque muitos investidores aplicavam em fundos que possuíam 200 ações ou mais, ou quase todo o mercado, com pouca diferença dos índices em suas carteiras, e cobravam taxas de administração de 1% ou mais. Agora, é possível ter o mesmo nível de diversificação com um ETF pagando 0,03% ao ano, explica Boroughs.

Este tipo de movimento de “ativo” para “passivo” nesse tipo de fundos deve ser permanente, pois não havia qualquer valor sendo adicionado dos gestores ativos, apenas taxas mais elevadas. “No entanto, os gestores que administram carteiras mais concentradas têm lutado para manter-se neste mundo muito estranho com taxas de juros negativas administradas pelos bancos centrais”, afirma Boroughs. “Eles vão superar novamente os fundos passivos em algum ponto no futuro e muito dinheiro vai voltar para esses fundos.”

Pressão para baixar taxas

O aumento nos fundos passivos também está levando a uma queda no custo dos fundos de ações ativos, observa Boroughs. Fundos ativos estão sob cada vez mais pressão para reduzir custos e esta pressão provavelmente continuará. “Os únicos fundos que continuarão a ser capazes de cobrar taxas muito elevadas são aqueles que podem demonstrar que seus retornos (durante longos períodos de tempo) são mais elevados, líquidos de taxas, do que o mercado ou têm menos volatilidade.”, explica.

Menos gestoras no mercado

Outro impacto no segmento de gestão é uma consolidação das gestoras. Segundo Boroughs, havia mais de 7 mil fundos hedge criados na última década e muitos estão sob tremenda pressão e estão fechando. “Como o pêndulo continua a balançar para a gestão passiva, mais e mais fundos hedge vão fechar ou ser comprados por fundos maiores”, afirma o gestor.

Ajuste de preços demora mais

Além disso, como há tanto dinheiro sendo gerido por computadores e robôs que acompanham tendências, está levando mais tempo do que historicamente ocorria para títulos subvalorizados e que costumam ficar fora do radar desses robôs retornarem ao seu verdadeiro valor intrínseco. Isso resulta em períodos mais longos de baixa performance das gestoras, o que reduz bônus por desempenho e torna mais atraente para os gestores fazerem parte de uma organização maior, onde eles têm capital de mais longo prazo e mais segurança no emprego.

Câmbio atrapalha para investir no Brasil

Boroughs diz que o Fortis ainda não possui ações brasileiras. “O desafio para nós é que, devido à nossa estrutura, não podemos nos proteger das oscilações da moeda”, explica. “Dada a inflação que vemos no Brasil, mesmo que recebamos um retorno razoável sobre as ações, talvez não tenhamos um grande retorno em dólares”, diz.

Mas, como a inflação recentemente está mais sob controle, o gestor diz que a Fortis pode olhar mais para o mercado brasileiro e realizar mais pesquisas sobre empresas brasileiras. “O ETF brasileiro (EWZ) que acompanhamos está acima de 90% do ano até o momento, por isso, infelizmente, parece que deveríamos ter ações brasileiras todo o ano”, admite.

Segundo ele, a Fortis vê o Brasil como uma economia que está se recuperando de uma recessão ruim com alta inflação e é um mercado que está caminhando para mais transparência e regulação. “É claro que os brasileiros querem mover seu sistema político para mais transparência e com isso acreditamos que mais regulamentação virá para os mercados financeiros também”, afirma Boroughs.

“A regulamentação nos mercados financeiros, embora possa ser onerosa, também cria um campo mais uniforme para pessoas como nós, que não estão fisicamente aí vendo as empresas cara a cara”, explica. “À medida que a regulamentação aumenta, acreditamos que a quantidade de capital externo que estará disponível para o Brasil aumentará o que ajudará a acelerar os investimentos no país”.

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