Arena Renda Fixa, Tesouro Direto

Queda dos juros valoriza papéis do Tesouro Direto e NTN-B longa acumula 60% em 12 meses

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A queda dos juros de longo prazo, que se acentuou de dezembro para cá, valorizou os papéis antigos do governo vendidos pelo Tesouro Direto. Quanto maior o prazo, maior o rendimento. O papel corrigido pela inflação, o Tesouro IPCA+ com juros no final, ou NTN-B Principal, com vencimento em 2035, acumula até hoje um rendimento de 59,87% em 12 meses. Em janeiro, o ganho ficou em 2,42% e, no ano, até dia 1º, em 3,35%, segundo dados do Tesouro Direto até hoje. Os papéis prefixados com juros pagos no vencimento, ou Tesouro Prefixado, as LTN, acumulam ganho de 49,18% em 12 meses e 3,73% e janeiro (ver tabela abaixo). Esse ganho também aparecerá em parte nos fundos de renda fixa em geral, especialmente nos de longa duração, ou longo prazo, que aplicam nesses papéis.

Esse ganho, porém, é contábil, e vale apenas para quem vender o papel no mercado hoje. Ele representa a variação do valor do papel no mercado há 12 meses ou há 30 dias e hoje. Esse valor, por sua vez, reflete a diferença entre o que o investidor paga hoje pelo título e o que vai receber no futuro, no resgate. Ou seja, o título público é sempre vendido com desconto em relação ao valor de resgate. Esse desconto, essa diferença, que representa o ganho do investidor nos próximos anos, é o juro embutido.

Sugestão de leitura Empiricus: Como investir no Tesouro Direto

Assim, quanto maior o valor do papel hoje, menor o ganho até o vencimento e, portanto, menor o juro. Por isso, quando o juro cai, o preço do papel no mercado sobe, para compensar. Já quando o juro sobe, o preço do papel  no mercado cai, para aumentar a diferença e o ganho ate o vencimento. Mas isso para quem vender o papel antes do vencimento. Quem ficar com ele até 2035 vai ganhar exatamente os juros da ocasião da compra. Ou seja, o investidor tem a opção de antecipar os ganhos até 2035 vendendo o papel hoje ou ficar com os ganhos garantidos até lá. O risco de vender agora é que os juros podem cair ainda mais e o investidor perderia mais uma rodada de ganhos. Mas, se tudo der errado, Donald Trump endoidar e os juros voltarem a subir, o papel cairá. Mas nada disso afetará quem comprou sua NTN-B para a aposentadoria com ganhos reais acima de 6% ao ano.

De uma forma simplificada, a queda dos juros no mercado valoriza o papéis antigos, com taxas mais altas, enquanto a alta dos juros os desvaloriza.

Prazo impacta o papel

Apenas em janeiro, o juro real  da NTN-B 2035 caiu de 5,61% ao ano para 5,50% além do IPCA. A diferença parece pequena, mas quando aplicada para quase 20 anos de duração do título, resulta nessa variação forte do valor do papel. O fato de o papel só pagar os juros no vencimento também aumenta o impacto dessas variações.

Já a LTN 2023 caiu de 11,47% para 10,91% ao ano prefixados, o que também tem impacto no valor do título, que tem de se ajustar ao rendimento menor e sobe. Como o prazo é menor, o impacto acaba sendo menor que a da NTN-B, apesar de a variação da taxa prefixada ser maior por incluir a projeção de inflação do mercado par o período, o que não ocorre na NTN-B, que só paga juros reais.

Ainda vale a pena comprar?

O mercado ainda estima algum ganho para as NTN-B, mas muito menor, pois o juro real se aproxima de 5%, que é considerado por alguns um piso devido ao risco do Brasil ainda ser  elevado e à chance de o juro nos EUA subir mais nos próximos meses. Há quem trabalhe com uma taxa real mais baixa, em torno de 4% ao ano, mas ela dependerá do avanço das reformas, como a da Previdência.

Já o juro prefixado das LTN caiu bastante, refletindo as projeções do mercado futuro da BM&FBovespa, que trabalham com taxas de 10% ao ano para 2021, apesar de o boletim Focus mostrar uma projeção de 9% par o fim deste ano. Se o mercado futuro estiver errado e o Focus certo, e a Selic cair mesmo para 9%, ainda haverá um ganho razoável para o papel prefixado. Mas o risco é maior.

Um dos que acha que o mercado está exagerando no otimismo é Alexandre Espírito Santo, economista da Órama Investimentos e professor do Ibmec Rio. Ele trabalha com uma Selic no fim deste ano em 10,75%. Ele não descarta a possibilidade de uma taxa de um dígito no fim do ano, mas diz que “a sensação é que taxa real brasileira ainda não pode ser, num primeiro momento, abaixo de 4% ao ano”. “O país nunca testou isso em condições normais e seria complicado para o Banco Central testar essa taxa num momento político tão difícil”, explica. Nas contas de Espírito Santo, se a inflação for para 4,5%, 10,75% de juros equivaleria a um juro real de 4% mais 2% de prêmio de risco, que é o que o país paga lá fora. “Se a Selic for abaixo de 10%, o juro real cai abaixo de 4% e pode haver saída de capital”, diz.

 

Títulos Vencimento 30 dias Janeiro No ano 12 meses Compra
Prefixado 01/01/2018 1,43 1,34 1,43 18,92
Prefixado 01/01/2019 1,92 1,76 1,92 25,87 10,33
Prefixado 01/01/2021 3,01 2,86 3,01 37,58
Prefixado 01/01/2023 3,77 3,73 3,77 49,18 10,91
Pré juro semestral 01/01/2021 2,75 2,61 2,75 31,72
Pré juro semestral 01/01/2023 3,11 3,07 3,11 37,66
Pré juro semestral 01/01/2025 3,34 3,4 3,34 43,65
Pré juro semestral 01/01/2027 3,52 3,65 3,52 49,27 10,83
Tesouro Selic 07/03/2017 1,08 1,03 1,08 14,05
Tesouro Selic 01/03/2021 0,92 0,87 0,92 13,63 0,05
IPCA+ 15/05/2019 1,05 1,05 1,05 14,1 5,67
IPCA+ 15/08/2024 1,61 1,65 1,61 28,02 5,65
IPCA+ 15/05/2035 3,35 2,42 3,35 59,87 5,5
IPCA+ Juro semestrais 15/05/2017 1 1 1 12,34
IPCA+ Juro semestrais 15/08/2020 1,14 1,22 1,14 15,69
IPCA+ Juro semestrais 15/08/2024 1,41 1,49 1,41 23,22
IPCA+ Juro semestrais 15/08/2026 1,66 1,76 1,66 25,47 5,68
IPCA+ Juro semestrais 15/05/2035 2,19 1,83 2,19 35,13 5,54
IPCA+ Juro semestrais 15/05/2045 2,65 2,07 2,65 39,16
IPCA+ Juro semestrais 15/08/2050 3,04 2,42 3,04 40,71 5,51

Fonte: Tesouro Direto. Dados até dia 1º de fevereiro.

 

 

 

 

 

 

 

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