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Investidor no divã: finanças comportamentais ajudam a evitar autossabotagem

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Quem nunca ouviu a história comovente de um cunhado que aplicou todas as economias em uma ação que “estava uma pechincha” e prometia “bombar” na bolsa nos próximos dias? Meses depois, quando já era mais do que claro tratar-se de um mico, lá estava o cunhado, resignado em sua posição, pois a recuperação era, afinal, “questão de tempo”.

Mais meses adiante veio, enfim, a decisão de sair do investimento, não sem amargar um prejuízo considerável. Embora cunhado seja algo que nem Freud explica, a atitude dele ao investir já é objeto de estudos acadêmicos.

Finanças comportamentais

Embora ainda engatinhando, a ciência das finanças comportamentais começa a esboçar os primeiros movimentos no Brasil. Relativamente novo também no exterior, esse campo do conhecimento ganhou fama no começo dos anos 2000, quando os psicólogos israelenses Daniel Kahneman e Amos Tversky (homenagem póstuma) foram laureados com o prêmio do Banco da Suécia em Ciências Econômicas (comumente designado Prêmio Nobel de Economia).

Decisão na incerteza

O estudo de Kahneman e Tversky escolhido pela Real Academia Sueca tratava dos julgamentos e tomada de decisões em um ambiente de incertezas. Aplicada à economia, a pesquisa tornou-se um dos fundamentos da área de economia comportamental. Hoje, os apontamentos dos pesquisadores israelenses têm sido desenvolvidos em outras áreas, inclusive a de finanças.

Centro de estudos

O interesse por essa linha de estudos cresceu no mercado e nos meios acadêmicos brasileiros nos últimos anos. Na última terça-feira, o Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getúlio Vargas (FGV), de São Paulo, apresentou formalmente o recém-constituído Núcleo de Estudos em Finanças Comportamentais, coordenado pelo professor de Finanças da FGV William Eid Júnior.

Há pouco mais de um mês em atividade, o núcleo pretende fomentar discussões e pesquisas para investigar os vieses comportamentais que, de forma consciente ou não, influenciam as decisões de investimentos das pessoas. Segundo Eid, a intenção é, mais do que pesquisar, chegar a conclusões práticas que auxiliem gestores de fundos e carteiras e investidores pessoas físicas a tomarem decisões mais claras e menos enviesadas na hora de aplicar suas economias.

Em entrevista ao blog Arena, Eid observou que as influências dos tais vieses estão sempre presentes em quaisquer escolhas, inclusive nas de investimentos. Ignorá-los, segundo o professor, “pode ser muito perigoso”. Porém, embora seja impossível livrar-se dos vises, é possível minimizar sua influência no processo de tomada de decisões. O primeiro passo é conhecê-los para, posteriormente, lidar com eles. Eis alguns, apontados pelo professor William Eid:

O viés de curto prazo

Segundo Eid, é um dos mais comuns no mercado brasileiro. “Há pouco tempo, todos achavam que o mercado brasileiro estava indo muito bem, que a economia ia de vento em popa, mas, em poucas semanas, despencamos”, observa. “Quando se fala em investimentos, principalmente na bolsa, se meu horizonte de prazo é o de uma semana, vou acabar enlouquecendo.”

Olhar para um prazo curto demais pode levar o investidor a trocar os pés pelas mãos, já que, embora empresas sejam afetadas de imediato por diversos acontecimentos, dificilmente há ocorrências que mudam os fundamentos da companhia e do mercado em que ela está inserida de uma hora para outra.

O viés da aversão à perda

É o viés do cunhado. Segundo Eid, a maioria das pessoas é rápida em se desfazer de uma ação que está dando lucro, com receio de que passe a cair. “Mas o investidor é muito relutante ao pensar em realizar uma perda, vender um papel que não para de cair, na esperança de que, mais à frente, o preço se recupere.”

O viés de representatividade

As pessoas, seja na hora de investir, quanto ao tomar outras decisões, tendem a generalizar algo que aconteceu apenas uma vez. “Meu amigo ganhou um dinheirão com determinada ação, então todo mundo ganha dinheiro com ela” é um exemplo de raciocínio enviesado pela representatividade, segundo Eid. “Ou o investidor exagera muito ao projetar o resultado ou observa um caso único e acha que vai se repetir sempre.”

O viés da autoconfiança

Talvez não seja o seu caso, mas o professor da FGV afirma que “todo mundo se acha melhor do que a média”. Ora, se todo mundo é acima da média, então, “onde está a média?”, questiona Eid. Trata-se de um dos vieses mais perigosos, ainda mais se combinado com o próximo.

O viés da confirmação

Não bastasse o excesso de autoconfiança, a maioria dos investidores busca evidências e características que confirmem que a decisão tomada foi a ideal. Segundo Eid, esse raciocínio “viciado”, aliado ao excesso de confiança, pode resultar em uma tremenda dor de cabeça para o investidor, seja ele inexperiente ou com vasta quilometragem de mercado.

Livrando-se dos vieses

Uma vez conhecidos os vieses e identificados os que mais atrapalham determinado investidor (nem todos são iguais), o próximo passo é estabelecer regras para tomar decisões. “Quem ganha dinheiro com investimentos é a pessoa disciplinada e não aquela que fica pulando de um investimento para outro sem estudar o que está fazendo”, afirma Eid. “Ao estabelecer regras, controlamos nossos ímpetos e minimizamos os erros.”

Segundo Eid, estabelecer um percentual de perda aceitável e se ater a ele é um dos meios de eliminar o viés de aversão à perda, por exemplo. Olhar as estatísticas de ganhos com determinada aplicação pode ajudar a manter o viés da representatividade sob controle.

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