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Dia da Pirâmide: há cinco anos, mercado descobria as fraudes de Madoff

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Hoje poderia ser considerado o Dia da Pirâmide, uma data para alertar os investidores dos riscos que correm ao ceder à tentação de lucros fáceis e rápidos e que acabam depois se revelando golpes financeiros. Há cinco anos, em 11 de dezembro de 2008, o mundo descobriu o esquema montado pelo americano Bernard Madoff, ex-presidente da bolsa eletrônica Nasdaq e um dos ícones de Wall Street.

Sozinho, ele provocou perdas de US$ 17 bilhões (R$ 39,6 bilhões) a milhares de investidores de todo o mundo. Se forem incluídos os valores dos rendimentos falsos, a perda total chegaria a US$ 65 bilhões, ou R$ 151 bilhões.

A fraude durou mais de uma década e enganou os mais diversos especialistas de mercado, que acreditavam que o “Tio Madoff”, como alguns chamavam o “gestor” de fundos, havia encontrado a fórmula secreta de só ganhar, nunca perder.

Entre seus clientes estava a nata financeira de Nova York, incluindo instituições de caridade, e os principais private banks e gestores de fortunas do mundo. Todos confiavam cegamente (literalmente) na gestora Bernard L. Madoff Investment Securities LLC, criada nos anos 60 com a ajuda do sogro.

Filhos denunciaram

O esquema veio à tona quando a polícia foi ao apartamento de luxo de Madoff prendê-lo por fraude financeira. Madoff havia sido denunciado um dia antes, 10 de dezembro, pelos próprios filhos, após revelar a eles que todas as aplicações da gestora eram forjadas e que ele estava quebrado. Temendo virar cúmplices, eles procuraram a polícia.

Com a crise de 2008, Madoff não conseguiu mais atrair clientes novos e, ao mesmo tempo, os resgates dos antigos aumentaram, desmontando o esquema. Ele então parou de pagar os resgates de seus fundos e admitiu que desde 1990 não aplicava o dinheiro investido nas carteiras em nada. Simplesmente usava os depósitos para pagar os resgates, o tradicional esquema de pirâmide financeira, no qual os novos aplicadores da base financiam a saída dos antigos, no topo.

Esquema Ponzi

Chamado também de “esquema ponzi” nos Estados Unidos, em homenagem a outro golpista famoso, o italiano Charles Ponzi, que chegou a montar um banco com um esquema de venda de selos no começo do século XX, a pirâmide financeira, como as do antigo Egito, resiste ao tempo e às diferentes culturas, como comprova o caso Madoff. Coincidência perigosa, Ponzi morreu no Brasil, na miséria.

Fatores ajudaram Madoff

O esquema durou anos porque, diferentemente das pirâmides comuns, Madoff não oferecia rentabilidades muito altas. Em lugar de atrair os investidores pela ambição, ele prometia rentabilidades apenas razoáveis, mas constantes, mesmo nos piores momentos do mercado. Isso criou em torno dele a aura de gestor conservador e de sucesso, o que fazia com que investidores brigassem para entregar o dinheiro a ele. Ao mesmo tempo, com rendimentos menores, ele também dependia menos da entrada de novos recursos para pagar os que saíam.

Outro fator que ajudou Madoff foi a falha dramática de fiscalização das autoridades americanas, apesar dos sinais de que ele escondia o destino do dinheiro aplicado. Clientes que pediam para ver a carteira dos fundos eram tratados com desprezo e tinham suas aplicações recusadas por um gestor indignado com a “desconfiança”. E, mesmo assim, os órgãos reguladores não foram capazes de identificar a falsificação de planilhas de resultados e de comprovantes de investimentos.

Mercados de balcão

Madoff dizia que usava os mercados de balcão, fora das bolsas, e que são menos controlados, para fazer as aplicações, o que facilitava esconder a fraude e a manipulação dos dados. Dessa forma, podia forjar oscilações de preços que não poderiam ser confrontadas com os negócios de mercados formais, como bolsas de mercadorias ou futuros. Também não havia controle de custódia, que teria de ficar com aguarda dos ativos comprados pelo fundo.

Controles no Brasil

Um esquema no Brasil seria quase impossível de acontecer com um fundo formal, uma vez que a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e o próprio mercado exigem dos gestores de fundos a abertura de todas as informações sobre suas aplicações a cada três meses pelo menos e onde estão guardados os ativos comprados. A CVM acompanha diariamente as cotas, que os fundos são obrigados a divulgar, e qualquer oscilação fora do normal é investigada.

150 anos de prisão

Cinco anos depois, as investigações do Caso Madoff continuam surpreendendo o mercado. Recentemente, foi descoberto que dois funcionários responsáveis pelo processamento de dados da gestora pediram para receber seus pagamentos em diamantes como forma de escapar de punições caso o esquema fosse descoberto. Madoff, porém, sempre afirmou que foi o único responsável pelas fraudes. Em 2009, ele admitiu ser culpado de 11 crimes, e foi condenado a 150 anos de prisão.

Personagens secundários

Um dos filhos do gestor, Mark, acabou se matando em 2010, diante do escândalo que atingiu a família. O irmão de Madoff, Peter, que cuidava da parte operacional da gestora, também foi condenado, em 2012, a 10 anos de prisão. Frank Di Pascali, diretor financeiro da gestora, admitiu mentir para investidores para criar a ilusão de ganhos dos fundos. Ele ainda está prestando depoimentos e ajudando nas investigações do caso.

A conexão brasileira

Poucos clientes, porém, conseguiram ver a cor do dinheiro que aplicaram na gestora de Madoff, incluindo muitos brasileiros, especialmente da alta sociedade carioca. Eles aplicaram por meio da Fairfield Greenwich, uma distribuidora de investimentos pertencente a Walter Noel Junior, que é casado com uma brasileira. A Fairfield concordou em pagar US$ 80 milhões para encerrar um processo movido por alguns investidores pelas perdas com Madoff.

A sobrinha de Noel, a brasileira Bianca Haegler, atuava irregularmente como representante da Fairfield no Brasil e convenceu vários amigos do Country Club do Rio a aplicar dinheiro nos fundos de Madoff.

Bancos cobriram perdas

Alguns bancos acabaram pagando parte das perdas que seus clientes de alta renda de private bank tiveram com Madoff, caso do Santander, do Safra e do HSBC.

Para o investidor, deveria ficar a lição de que todo cuidado é pouco quando se trata de aplicações que prometem ganhos muito acima dos do mercado em pouco tempo, oferecidas por empresas ou gestoras desconhecidas. No Brasil, os casos do Boi Gordo, Avestruz Master, Agente BR e outras mostram como é fácil enganar o público em geral.

A CVM chegou a preparar uma cartilha com dicas para se identificar uma pirâmide financeira.

 

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