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Reversão de operações de renda fixa na bolsa ajuda a derrubar Ibovespa

Ações na Arena

A reversão das operações de financiamento – compra de ações do Índice Bovespa à vista e venda de índice futuro na BM&FBovespa, que funciona como uma operação de renda fixa para os estrangeiros – está ajudando a derrubar o índice e a ampliar o saldo negativo de investidores externos, que já chega a quase R$ 2 bi em três dias deste mês.

Essas operações se tornaram comuns com o aumento do IOF de 6% em 2010 sobre as aplicações de renda fixa para estrangeiros, que passaram então a usar a bolsa para montar estruturas de renda fixa sem pagar a taxação. “O ganho não era muito grande, mas era maior do que o que esse investidor poderia obter lá fora e com menos risco”, explica Walter Mendes, da gestora independente Cultinvest.

Ele lembra que os investidores internacionais chegaram a acumular 160 mil contratos de venda de Índice Futuro em aberto há dois meses, número que caiu agora para 130 mil contratos, mesmo assim um número bastante expressivo. “Como não há mais IOF, o estrangeiro desfaz a operação, compra contrato de Índice Futuro e vende as ações da carteira do índice no mercado à vista, e isso derruba o Ibovespa”, explica.

A venda de ações de estrangeiros aumenta o saldo de saídas desses investidores do mercado, que só no dia 5, dia do anúncio do fim do IOF, atingiu R$ 1,3 bilhão, segundo dados do Ibovespa.

Mendes observa que não é somente essa operação que está derrubando o mercado hoje, para 51 mil pontos, o menor nível desde 2011. “Há também a questão da mudança para negativa da perspectiva de rating do Brasil pela Standard & Poor’s, e isso aumenta as vendas dos estrangeiros”, diz o gestor.

Comprar ao som dos canhões

Para ele, nesses níveis, o Índice Bovespa volta a ser atrativo para quem quer entrar no mercado. “Pode ser que ele caia mais, mas não deve ir muito além desses níveis”, diz Mendes, citando a máxima que “deve-se comprar ações ao som dos canhões e vender ao som dos violinos”. “A menos que o investidor acredite que a situação vai piorar muito mais, pode ser uma oportunidade de compra para quem tem visão de médio ou longo prazo”, diz.

Catalizador das desconfianças

O rebaixamento da perspectiva de crédito do Brasil acabou por catalisar todo o mau humor que já vinha circulando no mercado local e internacional em relação ao Brasil e às políticas do governo, e que cresceram após a divulgação do PIB fraco no primeiro trimestre. Na semana passada, dois bancos internacionais destacavam em relatório aos clientes o lado negativo do intervencionismo do governo na economia.

Em apresentação na segunda-feira, a clientes, analistas do J.P. Morgan reforçaram que o intervencionismo “virou marca registrada” do governo brasileiro e chegaram a comentar que não seria surpresa se o país tivesse seu rating rebaixado. O banco recomendava o México como preferido na América Latina.

Contas fiscais, fonte de desconfiança

Muitas das críticas são dirigidas à forma como o governo tem conduzido o combate à inflação e as contas públicas, observa um analista que pediu para não ter seu nome citado. O aumento dos gastos para incentivar a economia, que teve ontem mais um episódio com a destinação de mais R$ 15 bilhões ao BNDES, assim como medidas pontuais para ajudar alguns setores sem correspondência em cortes de despesas e a “contabilidade criativa” usada para mascarar esses gastos extras no orçamento criam desconfiança nos investidores.

O Banco Central se esforça agora em recuperar a credibilidade ao subir os juros, mas analistas lembram que a medida demorou a ser tomada e só veio depois que a oposição começou a usar a inflação para criticar o governo. Essa demora aumentará o custo do ajuste, que já precisaria ser mais amplo pelo fato de o governo continuar gastando mais para incentivar a economia.

Hoje, o próprio ex-ministro Delfim Netto, um regular consultor do governo, admitiu na agência de notícias Broadcast que, para recuperar a credibilidade, é preciso valorizar a parte fiscal e os controles de gastos do governo. “O governo vem brincando com a parte fiscal há muito tempo e continua fazendo isso, como mostra a nova injeção de recursos do BNDES, e enquanto não parar com isso não vai recuperar a confiança dos investidores”, diz o analista, que pediu para não ser identificado. “Não estamos em uma fase crítica, como Argentina ou Venezuela, mas a situação pode piorar muito se não for tomada uma atitude”, acrescenta.

 

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