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Brasileiro guarda pouco e mal para a aposentadoria, alerta especialista do Itaú

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O brasileiro não guarda dinheiro para a aposentadoria e, quando guarda, faz isso errado. A constatação é de Rodrigo Noel, especialista em carteiras da Itaú Unibanco Asset Management. Segundo ele, pouca gente guarda dinheiro para a aposentadoria. “Só 5% da população brasileira poupa, mesmo a de alta renda, na qual os que poupam são 4,7%”, diz.

Além disso, os que guardam, poupam mal. Um sinal disso é que 91% dos fundos PGBL são indexados ao juro diário Selic, diretamente ou via swap (instrumento que troca taxas pré por pós de determinado papel). Esse tipo de aplicação, observa Noel, está ameaçada pela provável queda dos juros, que reduzirá o valor potencial que a pessoa terá no futuro e obrigará o poupador a guardar mais, além de estar desvinculado do passivo das pessoas, que segue a inflação. “As pessoas deveriam primeiro ver qual é o seu passivo, que é o seu gasto futuro, em relação ao ativo, sua capacidade de poupar hoje”, diz. Noel participou de palestra na Fundação Getúlio Vargas de São Paulo sobre Ciclo de Vida do Investidor e Produtos de Investimentos”, promovida pelo Centro de Estudos em Finanças.

Pouca gente, porém, faz isso ao planejar a aposentadoria. “Por isso elas continuarão descasadas”, afirma. Para ele, os poupadores deveriam estar aumentando a alocação em ativos indexados à inflação com juros ainda altos pelo longo prazo ou aumentando o valor de suas reservas financeiras para compensar o descasamento e as surpresas.

Juros reais tendem a cair

Hoje, Noel estima que a taxa de juro neutra do Brasil, aquela que permitira ao país crescem sem inflação, seria de 5,5% reais ao ano. Com essa taxa, muito alta para qualquer atividade produtiva e de risco, fica difícil remunerar o capital das empresas. Por isso, o mercado acionário sofreu tanto nos últimos anos. “Mas não devemos pagar esse mesmo nível de juro reais em 10, 20 anos, simplesmente porque isso nos levaria a quebrar como sociedade”, afirma.

Confirmando essa necessidade de reduzir os juros reais, Noel lembra que a dívida pública já está perto de 80% do PIB. Já o déficit nominal do governo, que inclui o déficit primário mais os juros da dívida, está em 5% do PIB, depois de ter batido 10% anos atrás.

A conclusão é que ainda teremos juros reais altos por alguns anos por conta do déficit primário e das despesas com a dívida estratosférica do governo. “Isso explica por que ainda pagamos esse juro alto”, avalia Noel.

Juro real cai por bem ou por mal

Mas ele acredita que será difícil o país continuar assim. O juro real, afirma Noel, vai cair por bem ou por mal. “Se devemos 80% do que produzimos e continuamos pagando 5% do PIB sobre essa dívida, esse débito crescerá 5,5% ao ano, enquanto o PIB crescerá no máximo 3% ao ano”, explica.

Já se o governo conseguir equilibrar suas contas e inverter a trajetória da dívida, o juro real deverá diminuir e isso reduzirá a pressão sobre dívida e seu custo de financiamento. “E, se a taxa real começa a cair, a taxa de risco deve melhorar, e isso deve valorizar os ativos reais”, afirma.

Ajusto por mal

Já se o ajuste ocorrer por mal, o juro real também diminuirá, mas de forma mais traumática. Nesse cenário, o governo perderia o controle dos gastos e da inflação e partiria para a chamada dominância fiscal, com a inflação subindo e o capital externo saindo, puxando o dólar para cima.

Aí o juro real cairia na marra, pois a inflação explodiria e “comeria” o ganho real. “Mas aí não vai ter prémio de risco na renda variável, pois o cenário para a economia e para as empresas seria muito ruim”, diz. Mesmo assim, faria sentido ter investimento de renda fixa atrelado à inflação, pois ele seria corrigido e protegeria a poupança do investidor.

Reservas e perfil da dívida reduzem risco de calote

Noel observa que a situação da dívida pública, apesar de seu tamanho, é relativamente confortável. Hoje, um terço dela é indexada à inflação, pelo IPCA, um terço está prefixada e um terço pós, indexada aos juros diários da Selic.

Mas o executivo chama a atenção para o maior ativo do governo brasileiro, que são as reservas internacionais, de US$ 400 bilhões. “Se a inflação explode, o dólar também explode, e teremos 20% do PIB em reservas corrigidas por esse dólar”, explica Noel. Esse ganho iria para o governo. Já dois terços da dívida, em LFT e papéis prefixados, cairiam em termos reais, pois não conseguiriam acompanhar a alta da inflação.

Papéis isentos para aposentadoria

Noel também vê com reticências os ativos isentos para a poupança para a aposentadoria. No caso dos fundos imobiliários, eles até são aceitáveis pois deveriam guardar correlação com ativos indexados à inflação, “mas não faz sentido ter concentração grande pela liquidez baixa”, alerta. A falta de liquidez acaba por afetar a valorização dos fundos. Além disso, é preciso ter cuidado ao escolher o tipo de fundo e de imóvel para o longo prazo.

Vantagens do PGBL

Noel diz que não há nada melhor para aposentadoria que papéis indexados à inflação e a alocação de longo prazo em fundos PGBL de baixo custo e com papéis de longo prazo, com o estímulo fiscal de adiar o pagamento dos impostos hoje e pagar alíquotas menores no futuro.

Segundo ele, além do benefício fiscal também no resgate, pela alíquota de 10% após 10 anos sobre os saques, há a possibilidade de travar um juro real gigantesco que tem no Brasil. “Primeiro eu vejo como opções o PGBL, o VGBL e o Tesouro Direto”, diz. “Temos vários instrumentos que garantem um juro real de 5 e tanto por cento ao ano que não vamos ter nos próximos 10, 20 anos”.

Armadilhas do investimento e a ajuda do juro alto

Noel chama a atenção para as chamadas armadilhas do processo de alocação dos recursos. Até os 25 anos, as pessoas em geral consomem o capital dos pais, só estudando. Depois de formado e trabalhando, o indivíduo vai acumular capital humano, ou seja, sua capacidade de trabalhar e ganhar dinheiro, para viver e juntar capital financeiro para depois que o capital humano acabar podem manter-se na aposentadoria. “A diferença no Brasil é que, com o juro real, a pessoa termina com muito mais capital financeiro do que tinha de capital humano, pois vai acumular juros sobre esse capital financeiro por anos”, observa.

Medo de correr risco de curto prazo

O problema é que as pessoas, para não correr riscos de oscilações, deixam os recursos também no curto prazo, em aplicações conservadoras que seguem os juros diários, e perdem a oportunidade de travar os juros com aplicações que também preservam o poder de compra, ou seja, que sejam atreladas à inflação. Foi o que aconteceu quando os juros caíram para 7,25% ao ano e os juros reais ficaram abaixo de 3% ao ano. Quando a inflação subiu, as aplicações mais curtas ficaram abaixo da inflação, lembra Noel.

Quanto vou precisar no futuro hoje?

Outra falha, diz Noel, é que as pessoas não calculam todos seus passivos futuros. Por exemplo, qual a necessidade de gastos correntes ao longo dos anos, o ensino dos filhos, a compra do primeiro imóvel, a troca do carro, as viagens e, por fim, a aposentadoria mensal daqui 20, 30 anos. “Tudo isso deve ser trazido a valor presente pelos juros que você conseguiria em uma aplicação financeira, para saber o quanto você precisaria guardar hoje”, diz. E é preciso casar ativos e passivos nas aplicações. Ou seja, se a despesa futura for em dólar, uma viagem ao exterior, por exemplo, é preciso ter alguma aplicação na carteira em dólar. Mas uma grande parte será pela inflação, que atualiza a maior parte dos custos.

Contas precisam ser refeitas periodicamente

Os primeiros passos para organizar as finanças pessoais e a poupança para a aposentadoria, portanto, é calcular esse passivo e trazê-lo a valor presente, e travá-lo com aplicações adequadas. Se o dinheiro disponível para formar a poupança não for suficiente, ou se os juros ou a remuneração dessa poupança caírem, será preciso poupar mais ou mudar os planos: viajar menos ou trocar menos de carro, explica Noel. E esse processo, explica, tem de ser refeito constantemente, quer por conta de mudanças no cenário econômico, quer por mudanças nas prioridades.

Fundos com data-alvo

Essa visão levou os gestores de recursos a criarem modelos diferentes de fundos de previdência. No lugar de fundos que buscam o retorno máximo no curto prazo, a proposta agora são fundos com data-alvo. Dessa maneira, o investidor reserva o dinheiro em uma estratégia específica para usar daqui 20 ou 30 anos para determinado compromisso. O fundo poderia então sofrer oscilações de curto prazo sem comprometer os compromissos mais imediatos, cujos recursos estariam em outro fundo, de menor risco.

Custo de arrisca na bolsa é menor antes que depois

Dentro dessa visão, o ideal seria arriscar mais na bolsa no começo da acumulação, observa Noel. “A perda no começo do ciclo, trazida a valor presente por um período de 20, 30 anos, é muito pequena, e, portanto, o risco é muito menor ao se aplicar quando se é jovem”, explica.

Ao mesmo tempo, quanto mais próximo de consumir o ativo financeiro, ou seja, de usar o dinheiro, é preciso reduzir a renda variável e aumentar os tipos de renda fixa menos arriscada. Mesmo para valores menores, em que o espaço para diversificação é menor, haveria alternativas, como os ETF. Isso se chama olhar o orçamento de risco dos investidores, ou seja, o quanto eles podem arriscar de acordo com o prazo e o valor disponível para tentar ganhar mais.

Ele dá um exemplo de um fundo com data-alvo. Para 2020, ele teria 70% em renda fixa de curtíssimo prazo, 14% em IMA-B, com papéis indexados à inflação, e 15% em renda variável.

Para 2030, a renda fixa de curto prazo cairia para 27% e a parcela em IMA-B, corrigida pela inflação do IPCA, subiria para 35%, mesmo percentual destinado a ações. E, para 2040, apenas 9% ficariam em renda fixa de curto prazo. A proposta, diz Noel, é aumentar o número de ativos e diversificar mais quanto maior for o prazo.

Cabeça do investidor atrapalha

Um dos maiores problemas para a aplicação de longo prazo, além do descasamento de ativos e passivos futuros, é o viés de confirmação, pelo qual a pessoa procura acontecimentos aqueles que confirmam suas teorias, afirma Noel. “É a memória dos problemas do passado, que leva a pessoa a buscar ativos reais, se não o dinheiro vai sumir, e aí ela não consegue guardar o suficiente para investir e gasta o dinheiro”, explica. “Por isso temos um juro absurdamente alto e as pessoas não poupam”, completa.

Sem interesse por ações

Sobre a bolsa de valores, Noel lembra que o Índice Bovespa saiu de 10 mil pontos em 2002 para 78 mil em 2008 muito por conta da valorização de grandes empresas, como Vale e Petrobras. E havia muitas pessoas físicas acessando o mercado. Hoje, isso mudou, e a participação das pessoas físicas é muito baixa, 15% no total. E mesmo a parcela de fundos de ações está em torno de 5% do patrimônio total do mercado. “Esse total poderia aumentar, poderia ser 40%, 50%, mas não vai ser, por motivos históricos”, diz Noel..

Noel considera interessante a aplicação de parte dos recursos no exterior. Ao fazer isso, o investidor tira parte do risco macro do Brasil. “É um ativo descorrelacionado do restante do portfólio e, portanto, , faz sentido”, diz. Ele lembra que mesmo que a carteira tenha ativos pré ou pós-fixados corrigidos pelo juro diário, ainda assim a correlação é grande. “Se ganhar em 2018 um candidato populista, a situação fiscal pode piorar mais e ir para dominância fiscal. E aí um ativo de longo prazo poderia sofrer um impacto forte, e aí faria sentido ter parte do portfólio lá fora para compensar o risco”, explica.

Sobre o cenário de curto prazo, Noel afirma que, antes da crise, a asset do Itaú trabalhava com uma Selic de 7,5%, e depois aumento para 8,5%. “De lá para cá, fomos surpreendidos pela resiliência dos ativos e pela questão da inflação, que surpreendeu muito para baixo”, afirma. Mas, sem um ajuste fiscal, não haveria espaço para revisão para baixo da taxa neutra, mas talvez a Selic vá até 8%. “Mas o momento é de muita imprevisibilidade econômica, se Temer conseguir aprovar a reforma teremos um equilíbrio fiscal totalmente diferente de um cenário de não aprovar e ter um presidente em 2018 populista”, afirma.

Apesar disso, a asset mantem uma visão de juros que podem ir abaixo de 8,5%, para 8,25% talvez. O dólar, dependerá também da parte fiscal. Se as reformas serem aprovadas, um dólar a R$ 3,30 é caro. “Não aprovando ou tendo dúvidas, seria R$ 3,40”, diz.

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