Ações na Arena, Recomendações

AZ Quest vê oportunidade em ações e títulos públicos e impacto limitado de Trump

fundos_acoes_bolsa_investimentos_contas_dividas

Apesar de toda a turbulência no curto prazo provocada pela eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos, o cenário para o Brasil no médio e longo prazos é construtivo e há oportunidades para o investidor em bolsa e em títulos do governo, avalia Walter Maciel, sócio e diretor da gestora AZ Quest. Para ele, o fato de todos terem desprezado a possibilidade de Trump ganhar. “Mas assim como no Brexit, a eleição teve a novidade das redes sociais e do voto acabrunhado, daqueles que tinham vergonha de dizer em quem iam votar”, lembra. E o fato improvável da vitória de Trump é que provoca essa reação toda dos mercados.

Para Maciel, no primeiro dia, os mercados tentaram colocar panos quentes nos temores, mas o medo acabou voltando. “E esse medo tem de ser dissecado, afinal, o que Trump vai fazer?”, diz. O gestor lembra que Trump não pode fazer como Dilma Rousseff fez em 2014, negar o que prometeu ao eleitorado. E, ao mesmo tempo, como o Partido Republicano controla as duas Casas do Congresso e mais a Presidência da República, todo e qualquer erro que Trump cometer será culpa dos republicanos. “Não dará para colocar a culpa nos democratas, o que deve fazer o partido se preocupar mais com as consequências das decisões”, diz.

Sentimento antiglobalização

O fato de Trump poder ser considerado um “sujeito horroroso” por suas ideias machistas, xenófobas e até preconceituosas não invalida, porém, alguns sentimentos dos que votaram nele, ressalta Maciel. Em especial o sentimento antiglobalização e o excesso de burocracia do Estado. “São os mesmos ventos que trouxeram o Brexit para o Reino Unido e estão indo para a Europa, de aversão aos burocratas e uma classe média à margem da sociedade, que se sente inútil e com raiva da globalização e da imigração”, diz Maciel, lembrando que Barack Obama fez um excelente trabalho, criando 10 milhões de empregos. “Mesmo assim esse descontentamento prevaleceu”.

Sem muro, mas com deportações

Maciel acredita que muitas promessas mais radicais e racistas não vão ser levadas adiante. Trump não deve erguer um muro real na fronteira com o México, como ameaçava em tom de bravata, afirma Maciel. Mas vai expulsar imigrantes ilegais condenados por crimes que estejam na cadeia, como aliás voltou a prometer no fim de semana, estimando em até 3 milhões os possíveis deportados.

Também não vai cancelar tratados de livre comércio, mas vai tentar repatriar empresas americanas oferecendo bonificações para quem voltar ou punição com quem continuar com negócio fora. “Há uma preocupação em gerar emprego para essa massa desempregada, e é um discurso que tem mérito”, observa o gestor.

Dólar deve se fortalecer; Brasil tem pouco a perder

À parte o “lado horroroso” de Trump, Maciel diz que há medidas boas para a economia americana que devem fortalecer o dólar. “Vejo o dólar se fortalecendo contra o euro, moedas asiáticas e o peso mexicano por trazer empresas de volta”, afirma. “Mas, para o Brasil, a médio e longo prazo, esse feito não vai ocorrer”, afirma, lembrando que “no Brasil não temos empresa para voltar, pois aqui já é mais caro produzir que nos Estados Unidos”. Ou seja, quem deveria voltar pelo custo, já voltou. Mas, mesmo assim, o Brasil sofre neste momento, pois é um dos emergentes com mercados mais líquidos, o que facilita a saída.

Em alguns momentos, o Brasil pode ser até beneficiado, como na forte alta do minério de ferro na China, pela expectativa de aumento do investimento em infraestrutura nos EUA e do maior consumo de aço.

Mas, ao mesmo tempo, há limites para a atuação de Trump. Ele não poderá aumentar demais os gastos, nem pode cortar muito os impostos, pois poderia prejudicar as contas públicas americanas e provocar uma crise fiscal e alta dos juros no médio prazo. “E, em 2018, teremos novas eleições e, com o Congresso e o presidente republicanos, não vai dar para colocar a culpa nos democratas”, observa.

Em busca de novas Thatchers ou Reagans

Para ele, há um movimento contra a atual estrutura de governo forte e assistencialista nos EUA, parecido com o que levou a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher ao poder no fim dos anos 1970 e Ronald Reagan à Presidência dos EUA em 1981. “Vemos isso no início da desregulamentação do sistema financeiro americano e na oposição ao sistema de saúde criado por Obama”, diz. Essa desregulamentação pode ter efeitos positivos para a economia americana. “Mas não vemos grande impacto no Brasil”.

Dólar sobe, mas não muito, e bolsa melhora

A AZ Quest esperava que o dólar terminaria o ano perto de R$ 3,00 ou menos, mas agora o cenário mudou. “O que não quer dizer que o real vai ter uma tendência de desvalorização contra o dólar”, explica Maciel. Ele lembra que temos os juros mais altos do mundo, uma queda de inflação já contratada, “e isso não muda o cenário positivo para a bolsa brasileira”, diz.

Atraso no crescimento prejudica empresas

As empresas também devem se beneficiar da retomada do crescimento, que está atrasada, mas deve começar em algum momento. “O mais preocupante é esse atraso na recuperação da economia, que estava previsto para começar no trimestre passado”, destaca Macial. Com isso, o lucro das empresa brasileiras não vai ser o esperado. “Mas a demora no crescimento deve fazer o Banco Central esperar uma convergência da inflação para a meta de 4,5% em 2018, que vai acontecer, e alterar o tom na redução dos juros, usando a taxa Selic como instrumento de política econômica”, diz. Ou seja, o BC pode acelerar a queda dos juros diante da fraqueza da economia.

Dólar tende a recuar com juros e reformas

O risco é que o dólar continue em alta pela saída dos investidores do Brasil, mas Maciel diz que a tendência da moeda é recuar, pois o fluxo de recursos para o país deve continuar sendo positivo. Além disso, o crescimento mais fraco joga a inflação para baixo. O problema ainda está no setor de serviços, no qual os preços não recuaram. “Temos uma queda de braço e vamos ter de acompanhar e a sabedoria será tomar decisões à medida que as coisas forem acontecendo”, diz.

De qualquer maneira, Maciel acredita que a tendência do câmbio é de valorização do real e a alta atual está maior do que deveria ser. “Não faz sentido com o juro tão alto e o governo brasileiro aprovando as medidas fiscais, que devem fazer o gringo se interessar maispelo Brasil”, destaca. Ele lembra ainda que o ataque de Trump ao México faz com que o país deixe de ser um concorrente tão fonte do Brasil pelos capitais externos. “A vitória de Trump mexe com o tabuleiro de xadrez internacional.”

Dólar a R$ 3,30

Ele acredita que um dólar a R$ 3,30 é razoável agora pelo cenário incerto no exterior. Ele naõ acredita que a moeda volte aos R$ 4,00. E destaca os juros e as reformas como justificativa. Maciel observa que o mercado errou muito ultimamente, como quando subestimou o atual presidente Michel Temer. “Ele vai um pouco na direção do Trump, de reduzir o Estado, e outro dado aqui é o que aconteceu com o Rio de Janeiro”, diz, referindo-se à forte crise financeira por que passa o Estado. “Temer tem de usar o Rio como exemplo do risco do descontrole fiscal para aprovar as medidas no Congresso”, afirma.

Perspectiva excelente para a bolsa e para títulos públicos

Maciel diz que a gestora tem uma perspectiva excelente para a bolsa, apesar da demora na volta do crescimento. Ele está mais otimista com empresas que vão se beneficiar da queda dos juros sobre suas dívidas ou setores, como os de construção civil, imobiliário e elétrico. Ele cita ainda Gerdau, que tem operações nos EUA e poderia se beneficiar de uma retomada das obras de infraestrutura lá, mas “a ação já subiu bastante”, alerta. O mesmo vale para a Vale, que estava barata, mas subiu bastante da semana passada para cá, por conta do minério de ferro.

Ele também está animado com os títulos públicos, que ainda tinham gordura antes e agora têm mais pois as taxas subiram por conta do Trump. “As NTN-B voltaram a pagar taxas gordas demais”, afirma.

Para Maciel, o Brasil está em um momento em que o vetor externo é menos importante, a menos que Trump faça uma grande bobagem, como abrir guerra comercial com a China. “Aí cai todo mundo”, diz. O risco é um cenário de depressão ou juros muito altos no exterior, ou uma nova onda de separatismo na Europa. “Há riscos políticos na Itália e na França e podemos ter novos problemas fiscais, separatismo e ambiente político mais tumultuado”, afirma.

Artigo AnteriorPróximo Artigo
Receba nossas novidades no seu e-mail.
Enviar